terça-feira, 11 de outubro de 2016

Me Segura Que Eu Vou Ter Um Troço / ou Todos os dias eu mastigo um homem / ou ainda Odiava Papai




Todos os dias eu mastigo um homem
sinto gosto de carambola
de pão
de banha
e um azedume que sabe-se-lá de onde vem.

Mastigo entre os molares
entre os cisos arrancados
entre as gengivas velhas
emprestadas do futuro.

Mastigo esse homem com gosto de gelo
e de gelo me queimo as buchechas por dentro
com prazer.

Trituro seus ossinhos,
suas coisinhas
suas arminhas e suas brincadeiras
de guerra

LIbertê.Esquecitê.Amorrê



Você está  livre,meu amor.
Os antepassados não olham
por você
lá dos umbrais.
A tradição não protegerá
suas falhas
nem os retratos registrarão
suas carnes
                               [ branquinhas carnes de peixinho de tanque]

Não há sobrenome que sirva
de mapa para teu sanguinho.
Nem árvore que resgate
teus tantos eus-mortos.


Você está livre,meu amor.
Não há cuidado sobrenatural.
Não há zelo divino.
Não há papai,titiu,vovô.
Esses homens estão na lama
Esses pipis brocharam para sempre.

Você está livre,meu amor.
livre para existir
no esquecimento dos dias
dos afetos
das poeiras
dos ácaros que borbulham
riem
e somem.
Magníficos.





quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que são de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como
o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.
Clarice Lispector

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Culture

Aguardo ansiosamente a chegada do trem,
na estação tal, plataforma tal. 
No vagão inglês [wagon]
vem acomodada e tardia, 
a minha cultura. 

Como deve ser a danada?
Deve ser macho...
Deve usar smoking 
e ter os pés descalços.













quinta-feira, 11 de setembro de 2014

os sons do amor

Antes dos sons do amor,houveram os barulhos da simples existência.
Depois, os ouriços,as amendoeiras,as cores,os homens,os alces,as begônias,os bichos-de-pé, as
girafas, os mosquitos,as moscas, as lombrigas e a catarata, em uma grande assembléia que ocorreu entre pausa dos segundos, decidiram que a vida era bem mais do que fluir;mesmo sem saber com exatidão o que era de fato vida.
Se procriaram aos montes a fim de procurar em todos os cantos,no âmago das coisas, o som que move os milagres.
Descobriram.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

o Rei Acaso.

O acaso fez papai gostar da cachaça e mamãe gostar de café.
O acaso me fez nascer no Vale do Paraíba,na borda do rio.
O mesmo acaso que fez papai gostar de cachaça e mamãe gostar de café
que  me fez nascer na borda do rio,
fez deus espirrar
fez o mosquito picar justamente teu joelho
fez aviões caírem
fez os terremotos no Chile
fez os japoneses morarem no japão
fez o gato Teodoro fugir de casa.


punhado de noite

2:38, para o relógio da cozinha.
é um cobertor para o céu.
é escuro para as meninas.
é festa para as mariposas.
é a pálpebra do sol.
Como cabem coisas em um punhadinho só de noite